domingo, 16/06/2019
CBMA/ECUM representa Portugal no BIOSCAN, que envolve mais de mil cientistas de 31 países e 180 milhões de euros até 2026
A Escola de Ciências da Universidade do Minho representa Portugal no BIOSCAN, o programa
revolucionário de inventariação e monitorização da biodiversidade à escala
global, baseado na análise de segmentos padronizados do ADN. O projeto – lançado a 16 de junho em Trondheim, na Noruega – envolverá mais de mil investigadores
de 31 países e tem um financiamento de 180 milhões de euros para os próximos
sete anos. A iniciativa surge face ao forte declínio da biodiversidade e à
urgência de esta ser integrada nos modelos socioeconómicos, no quadro de um
comércio cada vez mais global.
O
BIOSCAN permitirá a descoberta de plantas, animais, fungos, algas e
seres unicelulares a um ritmo sem precedentes, além de aprofundar o
conhecimento das simbioses entre as espécies e permitir monitorizar à escala
global a dinâmica das comunidades biológicas. O sistema de
identificação baseia-se em códigos de barras de ADN, análogos aos
códigos de barras dos produtos comerciais, ao definir para cada espécie um
conjunto específico de carateres genéticos.
“Conhecemos
cerca de dois milhões de espécies, mas estima-se existirem possivelmente entre
10 a 20 milhões, há um trabalho gigante por fazer. Por isso, esperamos até 2026
compilar códigos de barras de ADN de pelo menos os cerca
de dois milhões de espécies formalmente reconhecidas, revelando pelo caminho
numerosas novas espécies", refere Filipe Costa, investigador do Centro de
Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) e professor do Departamento de Biologia
da Escola de Ciências da UMinho.
Por via da expansão da biblioteca global de
códigos de barras de ADN, o BIOSCAN vai auxiliar na verificação da
autenticidade de alimentos, na deteção facilitada de pragas agrícolas, no
controlo de produtos nas alfândegas, na bioprospecção e na conservação da
biodiversidade. Ou
seja, caminhamos para saber logo se a lata de conserva tem cavala ou sarda, se
a planta do bosque tem perfil medicinal, se um mosquito é da espécie que
transmite malária, se uma determinada erva é considerada invasora na União
Europeia ou, então, inferir se determinada pesca é sustentável com base na
ocorrência e distribuição das larvas de peixe.
O
maior consórcio para a biodiversidade
“Através dos códigos de barras de ADN, pode-se também fazer avaliações
em larga escala sobre o impacto das alterações ambientais na estrutura dos
ecossistemas. Isso permitirá à humanidade gerar informação suficiente para
formular políticas que protejam a biodiversidade global”, diz Filipe Costa. Com
o mundo a perder espécies mais rápido do
que elas são descobertas, os cientistas recorrem à tecnologia.
O BIOSCAN é o segundo projeto lançado pelo International Barcode of Life
(iBOL), o maior consórcio de sempre para a biodiversidade, que tem por alvo de
estudo todas as espécies multicelulares e ecorregiões do planeta. A UMinho,
através de Filipe Costa, é a representante nacional. Este responsável já
presidiu a secção europeia do
subprojeto “Fish Barcode of Life” e contribuiu em especial para a compilação de
uma biblioteca de códigos de barras de DNA para a vida marinha,
detetando novas espécies de peixes e invertebrados de Portugal continental,
Açores, Madeira e outros pontos da Europa. Coordenou ainda um projeto-piloto
sobre a fiabilidade da aplicação dos códigos de ADN na identificação de
espécies crustáceos.
O consórcio iBOL – liderado por Paul Hebert, da
Universidade de Guelph (Canadá) – decidiu iniciar em 2010 uma proposta de
inventariação da biodiversidade baseada no ADN. A primeira fase de trabalho
durou até 2015, com o programa Barcode 500K, que gerou DNA barcodes
para 500.000 espécies e teve 125 milhões de euros de investimento. A segunda
fase, com o programa BIOSCAN, vai analisar até 2026 as interações entre
espécies e estabelecer as bases de uma rede monitorização da
biodiversidade para a terceira fase, designada Missão para a Biodiversidade
Planetária, a qual pretende completar em vinte anos o inventário total da vida
e implementar um sistema global de biovigilância.
+Info: http://ibol.org/programs/bioscan
www.sciencemag.org/news/2019/06/180-million-dna-barcode-project-aims-discover-2-million-new-species