quinta-feira, 07/10/2021
Departamento de Ciências da Terra da Escola de Ciências da UMinho
O
vulcão de Cumbre Vieja, na ilha de La Palma, iniciou a sua mais recente erupção
há pouco mais de duas semanas. Muitas casas tiveram de ser evacuadas e os
especialistas afirmam que ainda é incerto apontar uma data para o fim da erupção.
Segundo os últimos dados do Departamento de Segurança Nacional de Espanha, a
lava do vulcão de La Palma já ultrapassou os 1,2 quilómetros de largura e estende-se
por 420 hectares, representando um perímetro total de 36,24 quilómetros.
Em
conversa com a Escola de Ciências da UMinho (ECUM), José Brilha, geólogo,
explica alguns dos fenómenos da atividade vulcânica, analisa as consequências
positivas e negativas da explosão de La Palma para a biodiversidade e reflete
sobre a necessidade de estarmos preparados para uma atividade semelhante no
arquipélago dos Açores. Afinal, é perigoso a lava entrar em contacto com o mar?
E é verdade que a ciência ainda não consegue prever estes fenómenos? Fomos
tentar descobrir.
José
Brilha é geólogo e professor no Departamento de Ciências da Terra da Escola de
Ciências da Universidade do Minho. Já investigou como as rochas graníticas e
basálticas se alteram à superfície terreste e, nas duas últimas décadas,
dedica-se a promover a conservação da natureza, em especial como se devem
proteger os sítios mais relevantes que permitem entender como funciona o nosso
planeta.
Como
podemos descrever um vulcão e como acontecem as explosões que continuamos a
assistir na televisão?
Em
determinados locais do planeta, o magma pode ascender até à superfície, formando
um vulcão. O magma é um material que existe em profundidade e que contém
componentes sólidos (minerais), líquidos (material rochoso fundido) e gasosos (principalmente
vapor de água, dióxido de carbono e dióxido de enxofre), que passamos a
designar por lava quando chega à superfície. Nesse instante, inicia-se um
conjunto diversificado de processos físico-químicos, tais como libertação de
gases e a sua combinação com a atmosfera e hidrosfera, arrefecimento da lava e
consequente solidificação, dando origem a materiais diversos como rochas
(basaltos, traquitos, etc.) e fragmentos de dimensões variadas (cinzas, lapilli
e bombas, designados genericamente por piroclastos).
Enquanto
os materiais mais pesados se acumulam nas zonas próximas do vulcão, dando
origem à típica forma em cone, as cinzas podem ascender a zonas elevadas da
atmosfera e dispersar-se por milhares de quilómetros. Nem todos os vulcões têm
características explosivas e é por isso que existem vários tipos de vulcanismo
e de vulcões. As explosões resultam da libertação súbita dos gases que existem
no magma, quando este chega à superfície, um ambiente com pressão muito mais
baixa daquela que existe no interior da crusta terrestre – tal como se liberta
o gás quando abrimos uma garrafa de refrigerante ou de espumante. O magma,
quanto mais gases tem e quanto mais viscoso se apresenta (normalmente
relacionado com maior quantidade de sílica), maior a probabilidade de dar
origem a erupções explosivas e, consequentemente, maior o potencial para causar
impactos sobre as populações.
A
atividade vulcânica continua a ser permanentemente estudada. A ciência já
consegue prever com precisão os períodos de erupção e o respetivo grau de
gravidade?
Os
fenómenos vulcânicos são estudados pela vulcanologia, uma especialidade da
geologia. A movimentação e ascensão em profundidade do magma, que pode
espoletar uma erupção vulcânica, provoca ondas sísmicas que são captadas à
superfície pelos sismógrafos. Estes sismos acontecem, normalmente, alguns dias
antes da erupção, o que permite à proteção civil retirar as pessoas das zonas
de maior risco. Foi o que aconteceu com a recente erupção em La Palma, onde,
até ao momento e felizmente, não houve qualquer perda de vidas humanas.
Os
geólogos sabem também que, em determinadas zonas do planeta, as erupções
vulcânicas têm um determinado padrão. Por exemplo, não é expectável que nas ilhas
das Canárias, Açores ou Hawaii haja explosões catastróficas como as que
acontecem nas ilhas das Caraíbas, Indonésia ou Filipinas. Isto porque o magma
tem características físico-químicas que variam com a relação que tem com as
placas tectónicas, isto é, tudo varia se o magma se forma sob uma placa ou numa
zona de afastamento ou de choque de placas.
Já
quanto à duração de cada episódio vulcânico, apenas conseguimos fazer
estimativas estudando as erupções anteriores que se registaram na mesma zona,
quer tenham ocorrido há poucas décadas ou há alguns milhões de anos. Em La
Palma, a investigação científica feita até ao momento permite que os
vulcanólogos estimem que a erupção possa decorrer, no máximo, durante alguns
meses – muito tempo para quem habita a região e se vê ameaçado por esta
geodiversidade, mas apenas um breve instante na história geológica da ilha e
nada distinto de dezenas de outros episódios vulcânicos que já aconteceram e
irão continuar a ocorrer nas Canárias.
Além
das consequências destruidoras da lava por onde passa, que efeitos nefastos
advêm destas explosões para o meio ambiente e para os seres humanos?
As
consequências de uma erupção vulcânica são diversas, umas positivas e outras
negativas. Por vezes, as erupções vulcânicas têm efeitos devastadores sobre os
seres humanos e outros seres vivos. Em 1985, o vulcão Nevado del Ruiz, na
Colômbia, provocou cerca de 25.000 vítimas e, em 1902, o vulcão Pelée na ilha
da Martinica originou cerca de 30.000 mortos, apenas para referir as erupções
mais devastadoras ocorridas no século XX. Na atual erupção em La Palma, para
além da destruição de infraestruturas e bens pessoais a lamentar e da
perturbação na atividade normal de quem habita a ilha, não se registam outras
consequências negativas significativas. Como é uma "pequena" erupção,
o impacto na atmosfera é muito limitado, não causando modificações assinaláveis
no clima nem perturbações no tráfego aéreo, sendo as consequências nos habitats
e biodiversidade rapidamente repostas de forma natural.
Como aspetos
positivos regista-se o reforço de vapor de água na atmosfera, o aumento da
fertilidade de solos e dos fundos marinhos pela acumulação de piroclastos, o
aumento da disponibilidade de materiais vulcânicos para a construção civil, o
aumento da superfície da ilha, dando a possibilidade da sua ocupação por
atividades antrópicas, e o aumento da atração de turistas, em especial após o
evento em curso, contribuindo para a economia da ilha e da região.
Na
semana passada, em La Palma, a lava atingiu a água do mar. O que é que podemos
esperar deste encontro?
Nas
ilhas vulcânicas, a probabilidade de a lava alcançar o mar é muito elevada.
Aliás, estas ilhas foram formadas e aumentam de área à medida que os materiais
vulcânicos vão "conquistando espaço" ao mar, criando nomeadamente deltas
lávicos, designados popularmente nas ilhas da Macaronésia por fajãs lávicas. As
lavas deste vulcão já aumentaram a superfície da ilha em cerca de 40 campos de
futebol, criando uma fajã que daqui a poucas décadas será certamente ocupada
por diversas atividades humanas. A lava fluída que escorre para o mar dá origem
a pequenas explosões sem grande impacto nos habitantes da ilha, resultado do
choque térmico entre a lava (900-1000°C) e a água do mar (20-25°C). A reação
química dos gases do magma com a água do mar e com os sais que esta tem
dissolvidos origina a libertação de vapor de água e outros compostos que, se
inalados, podem provocar danos nos seres humanos por serem ácidos. Como a nova
fajã não está ainda estável, podem ocorrer também súbitos colapsos em resultado
de ajustes na base da fajã, causando novos episódios de explosão e libertação
de gases. Por estas razões, e apesar da espetacularidade deste fenómeno, os
geólogos solicitam à proteção civil a não permanência de curiosos próximo da
fajã que se está ainda a formar.
Podemos
estar descansados em relação a uma possível atividade vulcânica em Portugal num
futuro próximo?
O
planeta Terra é, felizmente para todos nós, um planeta geologicamente ativo e, assim,
nunca devemos estar descansados! As rochas que fazem parte da geodiversidade de
Portugal dizem-nos, por exemplo, que algumas delas foram formadas em ambientes
vulcânicos há cerca de 500 milhões de anos. Na zona de Lisboa, há cerca de 70
milhões de anos, existiam vulcões com várias centenas de metros de altura. As
rochas mais antigas da ilha de Porto Santo têm 13.5 milhões de anos. A última
erupção na ilha da Madeira ocorreu há 6850 anos e ainda hoje existem águas
termais e libertação de gases (dióxido de carbono). Nos Açores, a erupção do
vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial, decorreu ao longo de um ano a partir de
setembro de 1957. O vulcão submarino da Serreta, ao largo da ilha Terceira,
esteve em atividade em 1998, não tendo dado origem, ainda, a uma nova ilha açoriana,
apesar de terem chegado à superfície do mar rochas provenientes dessa erupção.
Enquanto que em Portugal continental o vulcanismo se encontra extinto
(consideram-se ativos os sistemas com atividade vulcânica durante os últimos 10
mil anos), existem nos Açores 26 sistemas vulcânicos ativos, sendo oito
submarinos. É óbvio que temos de estar preparados para a próxima erupção
vulcânica açoriana e para outros processos ativos da geodiversidade no restante
território nacional.