segunda-feira, 01/06/2026
Centro de Biologia Molecular e Ambiental
Ronaldo Sousa é coautor
de estudo que apela à prudência na introdução de vida fora da Terra e propõe
orientações de governação.
Uma
equipa internacional – que inclui Ronaldo Sousa, da Escola de Ciências da Universidade
do Minho – alerta que a colonização espacial
pode desencadear invasões biológicas irreversíveis, caso microrganismos,
plantas ou animais introduzidos pelo ser humano escapem ao controlo. O estudo,
publicado na revista Oikos,
defende que esta colonização seja regulada, com princípios similares ao combate
a espécies invasoras na Terra, antecipando riscos ambientais, éticos e
evolutivos antes que os problemas passem da ficção científica à realidade.
“A
introdução de espécies da Terra em corpos extraterrestres (designada
terraformação) é, por si, um evento de invasão e potencialmente imprevisível”,
diz Ronaldo Sousa, investigador do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Escola de Ciências da
UMinho. “A nossa presença prolongada na Lua ou em Marte pode contribuir para a
sobrevivência da humanidade a longo prazo, mas também alterar esses
ecossistemas, pelo que devemos evitar criar as primeiras espécies invasoras
interplanetárias e repetir erros ecológicos cometidos na Terra”, diz.
O
cientista português exemplifica com a introdução nefasta de coelhos e raposas
na Austrália em 1859 e, noutro caso, o acidente do módulo lunar israelita
Beresheet em 2019, que libertou na Lua milhares de minúsculos tardígrados
(também conhecidos por ursos-d’água e que são altamente resistentes à
temperatura, radiação e à desidratação), evidenciando falhas nas normas de
proteção planetária e de missões privadas. “As missões espaciais estão no
centro do debate político e científico, logo importa falar também da terraformação, que traz riscos profundos de
desestabilização de ecossistemas emergentes”, anui.
Organismos
pioneiros?
O
estudo, em coautoria com Teun Everts (Bélgica) e Phillip Haubrock (Reino
Unido), traz uma nova perspetiva da terraformação, encarada como uma forma de
introdução biológica mediada por humanos e não apenas como engenharia
planetária. Os autores defendem a rápida regulação da introdução deliberada da
vida fora da Terra, para se evitar a reprodução de padrões históricos de
exploração e desigualdade, bem como a criação de entidades globais de
governação robustas e da colaboração interdisciplinar entre biólogos,
astrobiólogos, especialistas em ética e decisores políticos.
Entre
os possíveis organismos pioneiros para terraformação, o artigo analisa fungos
resistentes à radiação, cianobactérias, microrganismos metanogénicos e
organismos sintéticos, devido ao seu potencial de formar solos, produzir
oxigénio ou alterar a atmosfera. Porém, os cientistas avisam que esses
organismos podem gerar subprodutos tóxicos em ambientes extraterrestres com
recursos limitados.
“A
ciência das invasões fornece décadas de conhecimento sobre prevenção, deteção
precoce, avaliação de impactos e gestão de espécies introduzidas”, afirma
Ronaldo Sousa, salientando que estes princípios podem ajudar a monitorizar e,
quando possível, tornar reversíveis eventuais processos de terraformação. O
futuro desta área depende não só da tecnologia, mas também da capacidade de
aprender com erros ecológicos do passado e agir de forma responsável em novos
contextos planetários, acrescenta o autor, aquando da Semana sobre Espécies Invasoras.