terça-feira, 30/06/2026
Centro de Física
Nesta
edição da newsletter da Escola de Ciências da Universidade do Minho damos a
conhecer Yuliy Bludov, Investigador Principal no Centro de Física das
Universidades do Minho e do Porto. Natural da Ucrânia e radicado em Portugal
desde 2005, desenvolve investigação teórica nas áreas da matéria condensada e
do eletromagnetismo, com particular enfoque em grafeno, materiais
bidimensionais e fenómenos de ondas não lineares. Ao longo do seu percurso, tem
contribuído de forma significativa para o avanço do conhecimento em plasmónica
e dinâmica não linear, integrando projetos de referência a nível europeu e
internacional.
Conte-nos um pouco sobre o seu percurso
académico e profissional.
Licenciei-me em Radiofísica e Eletrónica (licenciatura
pré-Bolonha) pela Universidade Estatal de Kharkiv (Kharkiv, Ucrânia) em 1996 e
obtive o grau de Doutor em Ciências Físicas e Matemáticas, com especialização
em Radiofísica, no Instituto de Radiofísica e Eletrónica da Academia Nacional
de Ciências da Ucrânia (Kharkiv, Ucrânia), em 2000.
Concluído o doutoramento, permaneci neste instituto
até 2005 como investigador. Foi nesse ano que vim para Portugal, mais
concretamente para a Universidade de Lisboa, onde me dediquei a um pós-doutoramento,
que terminei em 2009.
Nessa altura, no âmbito do programa Ciência 2008, vim
para a Universidade do Minho desempenhar funções de Investigador Auxiliar e, em
2014, passei a integrar a equipa de investigação do projeto europeu Graphene
Flagship.
Ainda na academia minhota, exerci funções de
Investigador Auxiliar entre 2021 e 2025, passando depois a Investigador
Principal, posição que ocupo atualmente.
Em que consiste a sua investigação e qual
o seu contributo para a ciência nacional e internacional? Qual o impacto para a
sociedade?
A minha atividade científica centra-se em duas áreas
de investigação: estudos teóricos de ondas eletromagnéticas em grafeno e
noutros materiais bidimensionais (2D) e fenómenos de ondas não lineares em
condensados de Bose–Einstein e em estruturas óticas.
Na primeira área, estudo como o grafeno pode sustentar
um tipo especial de ondas eletromagnéticas que se localizam nas proximidades da
sua superfície, se propagam com baixa atenuação e cujas características de
dispersão dependem fortemente do índice de refração do meio envolvente. Esta
propriedade torna estas ondas particularmente promissoras para aplicações em
sensores, nas quais o índice de refração pode ser determinado a partir da
medição das suas características de dispersão.
Na segunda área, a minha investigação incide sobre a
propagação de ondas solitónicas, que podem percorrer longas distâncias sem
perder a sua forma, devido ao equilíbrio entre dispersão e não linearidade.
Embora estas ondas ocorram em diversos sistemas físicos, um exemplo bem
conhecido de um fenómeno do tipo solitão na natureza é o tsunami no oceano.
Quais foram as descobertas mais
importantes até ao momento?
Enquanto
teórico, o meu trabalho centra-se no desenvolvimento de modelos teóricos.
Recentemente, na área da plasmónica em grafeno, desenvolvemos um modelo teórico
para um dispositivo baseado em grafeno, no qual o grafeno atua simultaneamente
como meio ativo e como detetor de radiação eletromagnética. Propusemos um
modelo simples que permite prever as frequências das ressonâncias plasmónicas,
apresentando boa concordância com os resultados experimentais.
Na
área da dinâmica não linear, um dos principais resultados foi a investigação
dos mecanismos de geração de ondas gigantes (rogue
waves) — ondas não lineares localizadas tanto no tempo como no
espaço — em condensados de Bose–Einstein. Enquanto em muitos sistemas físicos
as rogue waves
surgem tipicamente em meios com não linearidade auto-focalizante, neste
trabalho foi proposto o uso de um potencial periódico como mecanismo para
possibilitar a existência de rogue
waves em meios com não linearidade auto-desfocalizante.
Porque decidiu investigar nesta área? Quem
o inspirou?
A área da plasmónica constitui, de facto, a
continuação do trabalho que iniciei durante o desenvolvimento da minha tese de
doutoramento. Após o início da minha atividade na Universidade do Minho, o
Centro de Física manifestou interesse em colaborar comigo nesta área,
colaboração essa que considero muito bem-sucedida.
O meu interesse pela ciência não linear surgiu ainda
durante a licenciatura na Universidade de Kharkiv, onde frequentei uma
disciplina dedicada a este tema, ministrada pelo professor Leonid Chernogor,
docente de elevada competência e grande dedicação científica. Posteriormente,
tive a feliz oportunidade de aprofundar este trabalho durante o meu período de
pós-doutoramento na Universidade de Lisboa.
Quais têm sido os principais desafios?
O principal desafio para um investigador
teórico surge quando se observa discrepância entre os resultados teóricos e os
resultados experimentais. Tal pode indicar limitações do modelo teórico na
descrição do sistema físico ou insuficiente precisão nas medições
experimentais.