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O que descobrimos na NEI2026 Voltar

sexta-feira, 25/09/2026    Escola de Ciências da UMinho
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Do plástico que ganha vida aos materiais inteligentes, dos números que nos podem surpreender aos supercomputadores, da nanotecnologia à roupa do futuro, a Noite Europeia dos Investigadores (NEI2026) levou ao Forum Braga experiências que desafiaram os visitantes a observar, experimentar e questionar.
Este ano, a mostra contou com mais de 200 atividades espalhadas pelos cerca de 5 mil metros quadrados do Forum. Mais do que assistir a demonstrações, quem passou pelas diferentes bancas foi convidado a participar nas propostas apresentadas. A noite foi de descoberta, aprendizagem e muita animação.

Nesta edição especial, reunimos algumas das atividades que deram vida à NEI2026, mostrando um pouco do que os visitantes puderam experimentar e descobrir.

Quando o lixo ganha vida

E se um pedaço de plástico encontrado no mar escondesse muito mais do que parece? Foi esta a pergunta lançada pelo Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Escola de Ciências da UMinho (ECUM), através de um conjunto de atividades dedicadas ao plástico que chega ao oceano. Depois de entrar no mar, o plástico pode tornar-se habitat para diferentes organismos, incluindo espécies nativas, invasoras e potencialmente nocivas. As atividades permitiram descobrir que organismos vivem e colonizam estes resíduos, perceber como ferramentas baseadas no ADN permitem identificar espécies que nem sempre conseguimos observar a olho nu e investigar de onde vem o lixo marinho e que impactos pode ter nos ecossistemas.


Quem passou por este espaço pôde observar resíduos plásticos recolhidos nas marinas portuguesas e descobrir quem vive no plástico, observar organismos ao microscópio e perceber como é que estes resíduos se podem transformar em verdadeiros habitats. Os participantes foram desafiados a identificar e classificar organismos, incluindo espécies nativas, invasoras e potencialmente nocivas. Para Sofia Duarte, investigadora do CBMA, um dos principais objetivos passou por mostrar que o plástico encontrado no mar pode revelar muito mais sobre os ecossistemas do que aquilo que é visível à primeira vista.


É também por isso que, para a investigadora, o plástico pode ser mais do que lixo. “Pode ser também um pequeno «ecossistema» e uma espécie de testemunho das alterações que estão a acontecer no mar.”

A atividade procurou ainda mostrar que nem sempre é necessário conseguir observar diretamente um organismo para saber que esteve ali. “Gostaria que descobrissem que o plástico no mar não é um objeto inerte. Depois de chegar ao oceano, rapidamente é colonizado por organismos e pode tornar-se um verdadeiro habitat e, ao mesmo tempo, um veículo de dispersão de espécies. E que, mesmo quando não conseguimos ver esses organismos, podemos encontrar os seus vestígios de ADN e descobrir quem esteve ou está ali.”

O ADN surge, assim, como uma ferramenta importante para complementar a observação. Através destas técnicas, os visitantes puderam perceber como é possível identificar espécies associadas ao plástico e investigar a biodiversidade que se encontra nestes resíduos.

Mas o problema começa antes de o plástico chegar ao oceano. Questionada sobre a ideia de que um pequeno pedaço de plástico “não faz diferença”, Sofia Duarte deixa um alerta: “No oceano, não existe «apenas um pequeno pedaço de plástico». Cada fragmento pode persistir durante muitos anos, ser colonizado por organismos, transportar espécies e acabar por se fragmentar em partículas cada vez menores.” E acrescenta: “Um pequeno pedaço pode parecer insignificante, mas milhões de pequenos pedaços transformam-se num problema enorme. A melhor solução é evitar que o plástico chegue ao mar.”

A investigadora participa há vários anos na Noite Europeia dos Investigadores e considera que iniciativas como esta são fundamentais para aproximar a ciência do público. “A ciência faz parte do nosso quotidiano, mas muitas vezes parece distante ou difícil de compreender” e por isso, o contacto direto com os investigadores pode tornar a ciência mais acessível, aproximando os investigadores do público, permitindo que as pessoas façam perguntas, experimentem e descubram por si próprias. Para além disso, esta é também uma forma de “mostrar que a ciência não é «apenas para alguns»: é feita para compreender o mundo que todos partilhamos e pode ser explorada e questionada por todos”, concluiu Sofia Duarte.

Materiais feitos à medida dos desafios

No Centro de Física, a pergunta foi outra: como podemos desenhar materiais capazes de responder aos desafios da sociedade?

A atividade “Desenho de materiais avançados para desafios da sociedade” mostrou aos visitantes que as propriedades de um material podem ser pensadas e ajustadas de acordo com a aplicação pretendida. Filmes, fibras, membranas, partículas e estruturas tridimensionais deram corpo a uma viagem que começou no desenho e síntese dos materiais e terminou nas suas aplicações.


“Nesta atividade mostramos como se desenham, processam e caracterizam materiais com propriedades específicas e como essas propriedades são exploradas em aplicações concretas. O percurso começa na Física dos Materiais, com a composição, a estrutura e as propriedades, e termina com exemplos ligados à produção e armazenamento de energia, sensores, biomedicina, saúde e ambiente”, explicou Clarisse Ribeiro, investigadora do Centro de Física.


Energia, digitalização, ambiente e saúde foram algumas das áreas exploradas, com os visitantes a observarem materiais inteligentes, funcionais e multifuncionais e a acompanharem demonstrações sobre a forma como estes respondem a estímulos mecânicos, elétricos, magnéticos ou térmicos. Entre as aplicações apresentadas estiveram sensores e atuadores, sistemas de geração e armazenamento de energia, materiais para monitorização ambiental e soluções para a regeneração de tecidos, libertação controlada de fármacos, controlo de infeções e terapias avançadas contra o cancro.

“Mostramos materiais concebidos para apresentar uma resposta específica quando sujeitos a determinados estímulos externos, incluindo ambientais. Essa capacidade permite desenvolver tecnologias que respondem ao que acontece à sua volta, com aplicações em áreas tão diversas como sensores, atuadores, energia, saúde, na monitorização e atuação, ou ambiente, na monitorização e remediação”, acrescentou a investigadora.

Para Clarisse Ribeiro, uma das ideias fundamentais que os visitantes poderiam levar desta experiência é a possibilidade de desenhar as propriedades dos materiais em função das necessidades. “Gostaria que percebessem que as propriedades de um material não são apenas algo que encontramos: podem ser desenhadas, processadas e ajustadas em função das necessidades de uma determinada aplicação. Uma alteração na composição, na estrutura ou mesmo na forma do material pode mudar profundamente aquilo que ele consegue fazer. Essa relação entre estrutura, propriedades e função é uma das ideias fundamentais da Física dos Materiais.”


Quando questionada sobre a aplicação que melhor demonstra o impacto futuro desta investigação, a investigadora destaca precisamente a dificuldade em escolher apenas uma. “Talvez o mais surpreendente seja precisamente não existir uma única resposta. Os mesmos princípios da Física dos Materiais permitem desenvolver materiais para gerar e armazenar energia, criar sensores para monitorização física, ambiental ou biomédica, atuadores para interferir, estimular ou modificar o ambiente à volta do material, desenvolver soluções para um ambiente mais sustentável ou conceber novas abordagens para a saúde, desde a regeneração de tecidos à libertação controlada de fármacos, função antibacteriana e terapias avançadas.”

Mais do que uma aplicação específica, sublinhou Clarisse Ribeiro, o essencial é perceber “como a capacidade de controlar as propriedades dos materiais permite procurar respostas para desafios tão diferentes da sociedade”.

A atividade mostrou também como a investigação pode ser aproximada de públicos que não trabalham diariamente com ciência. Para a investigadora, iniciativas como a Noite Europeia dos Investigadores são importantes precisamente por permitirem esse contacto direto. “Uma das grandes vantagens destas iniciativas é permitir que as pessoas vejam a ciência de perto, façam perguntas e interajam diretamente com quem investiga. Quando um conceito que pode parecer abstrato é mostrado através de uma experiência ou de um objeto que podemos observar e testar, torna-se muito mais próximo e compreensível.”

Desta forma, acrescentou, “a ciência deixa de parecer algo reservado aos laboratórios e passa a ser vista como aquilo que realmente é: uma forma de compreender o mundo e de procurar soluções para problemas concretos”.

Quando os números nos podem enganar


Um número pode estar certo e, ainda assim, levar-nos a tirar uma conclusão errada.


Foi esta a ideia explorada pelo Departamento de Matemática da Escola de Ciências da UMinho (ECUM) através da atividade “Notícias com números errados – análise crítica e chocolates”, que desafiou os visitantes a olhar para os números de forma mais crítica e a perceber como uma informação aparentemente simples pode esconder diferentes interpretações.


Todos os dias somos confrontados com números na televisão, nos jornais, na internet e nas redes sociais. Percentagens, comparações e valores aparentemente impressionantes fazem parte da informação que consumimos, mas nem sempre são apresentados ou interpretados da forma mais rigorosa. “A necessidade de ter consciência dos números, unidades e conceitos quando se dá uma notícia. O rigor é importante para que a mensagem seja bem transmitida”, explica Rui Pereira, investigador do Departamento de Matemática da ECUM.


Foi precisamente esse olhar crítico que os visitantes foram convidados a desenvolver. Primeiro, responderam a três questões. Depois, analisaram notícias e situações em que a interpretação dos números não era imediata. Através de um jogo, puderam desconstruir erros de raciocínio relacionados com temas como percentagens e dimensões físicas e, no final, voltar a responder às mesmas questões para perceber se a sua capacidade de análise tinha melhorado.

Um dos exemplos apresentados mostra como uma pequena diferença na forma de apresentar um número pode alterar significativamente a mensagem. “Por exemplo, dizer que a inflação é 5% não é o mesmo que dizer que a inflação aumentou 5%”, explica Rui Pereira.


A diferença pode parecer pequena, mas não é. “A inflação ser 5% quer dizer que os preços subiram 5%. Dizer que a inflação subiu 5% significa que, se, por exemplo, no ano anterior a inflação era de 10%, após uma subida de 5% do seu valor passou a ser de 10,5%”, exemplifica o investigador.


A atividade procurou, assim, mostrar que interpretar números não passa apenas por saber fazer contas. É também necessário perceber os conceitos, as unidades e o contexto em que os valores são apresentados. E, para tornar o desafio ainda mais apelativo, havia chocolates para os participantes que conseguissem cumprir as diferentes etapas.

A matemática esteve também presente através de “Jogos matemáticos e estatísticos”, uma atividade em que os visitantes puderam explorar resultados importantes destas áreas através de desafios e experiências lúdicas.


Mais do que transmitir conceitos, a iniciativa procurou aproximar a matemática e a ciência dos visitantes, sobretudo dos mais novos. Para Rui Pereira, esse contacto pode ajudar a criar uma relação diferente com a ciência: “Ajudam a que alunos, especialmente os mais novos, possam aprender a gostar da ciência”, concluiu.

Quando a computação ganha outra dimensão

Como funciona um supercomputador e o que torna possível fazer em apenas alguns dias aquilo que, num computador convencional, poderia demorar anos? Foi este o desafio lançado pelo Centro Nacional de Computação Avançada (CNCA) aos visitantes da Noite Europeia dos Investigadores, através da atividade “Eu sou um supercomputador!”.


A experiência colocou os participantes no papel de “processadores”, permitindo-lhes perceber, de forma prática, como milhares de unidades de processamento podem trabalhar em simultâneo para resolver problemas de elevada complexidade.

“Vamos mostrar, na prática, o que é um supercomputador, como o Deucalion, e desmistificar alguns conceitos ligados à supercomputação”, explicou António Luís Sousa, Diretor de Operações do supercomputador Deucalion e Diretor Técnico do CNCA. Através de atividades práticas e interativas, os visitantes puderam perceber como se “pensa em paralelo”, que tipo de descobertas um supercomputador torna possíveis e como é, na prática, submeter e gerir uma tarefa num sistema de computação de alto desempenho.


A diferença está na capacidade de dividir e distribuir o trabalho. “Um computador comum executa tarefas uma de cada vez, ou poucas em simultâneo, com um número reduzido de processadores. Já um supercomputador, como o Deucalion, tem milhares de processadores a trabalhar em simultâneo sobre o mesmo problema”, explicou. “Este tipo de processamento é essencial, porque há pesquisas que são demasiado complexas para serem resolvidas por um único processador. Assim, ao juntar milhares de processadores, é possível fazer em dias cálculos que, de outra forma, demorariam anos.”

Essa capacidade abre caminho a aplicações em áreas muito diversas, desde a previsão do clima à descoberta de medicamentos, passando pela simulação do Universo e pelo treino de modelos de inteligência artificial. O Deucalion é também utilizado em investigação de novos materiais. “Está a ser usado para descobrir novos materiais e criar uma base de dados de materiais conhecidos, um trabalho que pode acelerar a criação de materiais mais sustentáveis no futuro”, exemplificou António Luís Sousa, também docente na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e investigador do INESC TEC.


As aplicações podem chegar a áreas menos óbvias. “Este recurso computacional também é usado para simular, por exemplo, o efeito de diferentes desenhos de chupetas, para perceber qual é o design mais adequado ao desenvolvimento das crianças”, acrescentou.

A atividade incluiu ainda uma introdução à programação de um supercomputador, mostrando que trabalhar com uma infraestrutura desta dimensão exige uma forma diferente de pensar e de organizar as tarefas. Programar em computação de alto desempenho implica pensar em paralelo, gerir recursos e distribuir o trabalho pelos milhares de processadores disponíveis.

Mais do que apresentar uma tecnologia distante do quotidiano, a atividade procurou mostrar como a supercomputação pode ter impacto em áreas próximas da vida das pessoas. “A ciência e, em concreto, a supercomputação não estão distantes do quotidiano das pessoas. O poder do Deucalion é usado em investigações e produtos que podem vir a ter impacto direto na vida das pessoas em diferentes áreas, desde os materiais que usamos nas construções aos tratamentos na saúde”, sublinhou António Sousa.

Para o investigador, esta aproximação é também uma das razões pelas quais iniciativas como a Noite Europeia dos Investigadores são importantes. “Poder experimentar e perceber, de forma simples, tecnologias que normalmente parecem distantes ou reservadas a especialistas é uma forma eficaz de aproximar as pessoas da ciência.” O contacto direto com quem trabalha diariamente com o supercomputador pode ainda “despertar a curiosidade, especialmente nas gerações mais novas, que podem vir a ser as futuras cientistas”.

O Deucalion está instalado em Guimarães desde 2023 e é atualmente o maior supercomputador disponível em Portugal. A infraestrutura é acolhida pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e operada pelo Centro Nacional de Computação Avançada (CNCA), pelo INESC TEC e pela Universidade do Minho. Integrado na rede de supercomputadores do EuroHPC Joint Undertaking, reforça a capacidade de computação avançada disponível em Portugal e a participação do país na infraestrutura europeia de supercomputação.

A roupa que vai muito além do que vestimos


Um tecido pode aquecer, emitir luz, detetar substâncias ou integrar estruturas concebidas para proteger naves espaciais. Na Universidade do Minho, a investigação têxtil está a explorar materiais e tecnologias que podem transformar não só aquilo que vestimos, mas também a forma como os têxteis são utilizados na saúde, na proteção, no ambiente e no espaço.


Foi este universo que os visitantes puderam conhecer na Noite Europeia dos Investigadores (NEI2026), em Braga, através da atividade “Engenharia Têxtil e Design e Marketing de Moda do Futuro”, promovida pelo Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil (
2C2T) e pelo Departamento de Engenharia Têxtil (DET) da UMinho.


Entre os trabalhos apresentados estiveram fibras naturais de cânhamo, banana, ananás, fiteira e cardo, fibras provenientes de espécies invasoras e de lenha de poda, além de materiais produzidos a partir de resíduos da indústria têxtil e do calçado. Foram também apresentados materiais à base de algas e quitosano e estruturas obtidas por electrospinning e impressão 3D.

Mas a inovação está também nas funções que estes materiais podem desempenhar. Entre as soluções apresentadas estiveram sensores têxteis, malhas com elétrodos, tecido de fibra ótica e têxteis capazes de produzir aquecimento através do efeito de Joule, além de trabalhos de tingimento e estamparia com biopigmentos.

“Se pudéssemos escolher apenas uma coisa, gostaríamos que os visitantes descobrissem a diversidade e o potencial dos têxteis”, explicou Jorge Padrão, do 2C2T. “Os têxteis vão muito além da produção e confeção de vestuário.”


Essa mudança está também relacionada com a forma como pensamos a própria roupa. “A roupa sempre foi mais do que aquilo que vestimos: comunica identidade, pertença e cultura e medeia a nossa relação com os outros e com o mundo”, afirmou o investigador.

A investigação procura acrescentar novas funções aos materiais e, ao mesmo tempo, responder aos desafios ambientais da indústria, através do reaproveitamento de materiais, do prolongamento da vida útil das peças e da valorização de recursos e saberes existentes. “A moda do futuro será, assim, não apenas tecnologicamente mais avançada, ativa e responsiva, mas também mais consciente dos seus impactos ambientais, sociais e culturais”, acrescentou Jorge Padrão.

Quando os têxteis chegam ao espaço


Um dos projetos apresentados foi o SPACETEX, que estuda estruturas têxteis concebidas para proteger naves espaciais de detritos em órbita e meteoritos. O projeto combina diferentes fibras e construções em malha e tecido para desenvolver sistemas capazes de suportar impactos a hipervelocidade, que podem atingir cerca de 10 km/s.


Embora a aplicação seja espacial, a investigação pode gerar conhecimento com interesse para outras áreas. “O conhecimento gerado sobre materiais, estruturas e desempenho permite-nos pensar também no futuro do vestuário”, explicou Jorge Padrão. “Os materiais e as tecnologias têxteis estão presentes em áreas tão diversas como a saúde, a construção, os transportes, a proteção, o ambiente ou até o espaço”, destacou o investigador.

É nesta convergência que se desenha o futuro dos têxteis. Microbiologia, química, ciência dos materiais, mecânica, eletrónica e inteligência artificial cruzam-se com o design para criar materiais que podem detetar, aquecer, proteger, interagir com o corpo e responder ao ambiente.

Aproximar a ciência das pessoas


A atividade procurou também mostrar ao público como diferentes áreas do conhecimento podem trabalhar em conjunto. Para Jorge Padrão, iniciativas como a Noite Europeia dos Investigadores contribuem para essa aproximação.

“Sem sombra de dúvida” que estas iniciativas contribuem para a divulgação da ciência, considera o investigador, ao aproximarem os investigadores da sociedade e criarem “uma plataforma privilegiada de interação e de demonstração da ciência que faz parte do nosso quotidiano, muitas vezes de formas que nem imaginamos”.

O contacto direto permite ao público fazer perguntas e experimentar. “Esta oportunidade permite uma troca direta de impressões entre o público e os investigadores, de fazerem perguntas, experimentarem e perceberem que a ciência é feita por pessoas, para pessoas, e que todos convivemos e usufruímos dela.”

Na atividade, a roupa foi o ponto de partida para uma viagem por novos materiais, sensores, eletrónica, biotecnologia, impressão 3D e tecnologia espacial. Uma viagem que mostra que, quando se fala dos têxteis do futuro, a questão já não é apenas o que vamos vestir, mas aquilo que uma peça de roupa poderá ser capaz de fazer.

Da água ao cérebro: a nanotecnologia em ação

Um pequeno fragmento de plástico podia esconder uma comunidade de organismos. Um feixe de luz podia revelar fenómenos invisíveis. E a nanotecnologia podia ajudar a diagnosticar doenças, reforçar tratamentos contra o cancro ou tornar os painéis solares mais eficientes. Na Noite Europeia dos Investigadores (NEI2026), o Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) levou estas e outras perguntas ao encontro do público.


Entre experiências, demonstrações e conversas com investigadores, os visitantes percorreram diferentes áreas da investigação desenvolvida no INL e descobriram aplicações da nanotecnologia na saúde, no ambiente, na energia e nas tecnologias do futuro.

Na atividade “ICPLASTIC: Das partículas de plástico invisíveis a soluções visíveis”, a atenção centrou-se no que não se via a olho nu. Quem passou por este espaço acompanhou uma demonstração de extração e visualização de microplásticos presentes na água e ficou a conhecer algumas possibilidades de reutilização destes resíduos.

Noutro ponto do stand, a nanotecnologia foi apresentada como uma ferramenta para enfrentar desafios na área da saúde. A saúde da mulher esteve destaque com “Missão endométrio: desvendar os mistérios da endometriose”, onde o projeto SENSOPAD explica como o sangue menstrual pode ajudar os cientistas a compreender melhor a endometriose através de novas tecnologias inovadoras.

A curiosidade podia depois seguir outro caminho. Em “Armadilha de iões: para que serve?”, o projeto CHAMP-ION desenvolveu uma explicação educativa de uma armadilha de iões e dos estados de um qubit (quantum bit), a unidade fundamental de informação quântica na computação quântica. “Apresentamos experiências interativas, que permitiram não só conhecer a investigação, mas também perceber como esta pode ter impacto na nossa vida”, explicou Catarina Moura, do INL.

A energia foi outro dos temas em destaque. A proposta “Janelas que produzem energia” mostrou como a investigação podia contribuir para desenvolver novas soluções para aproveitar a energia solar, através dos projetos Hi-BITS, TRASMIT e Sunlife.

Mas havia outra dimensão que atravessava todas as atividades: o encontro com quem faz ciência. Para a comunicadora de ciência do INL, esse contacto direto foi uma das principais mais-valias da iniciativa. “Mais do que mostrar os resultados da investigação, quisemos proporcionar uma oportunidade para conversar diretamente com quem faz ciência”, afirmou. Os visitantes puderam fazer perguntas, conhecer diferentes áreas de investigação e descobrir percursos científicos, “quebrando mitos e ideias preconcebidas sobre quem faz ciência”. Ao mesmo tempo, tiveram oportunidade de olhar para além dos equipamentos, das experiências e dos resultados e conhecer as pessoas que estão por detrás deles. “São pessoas curiosas, com perguntas, desafios e histórias muito diferentes”, destacou Catarina Moura.

Foi também por isso que a participação do INL na NEI2026 procurou aproximar a ciência do quotidiano. “A ciência é para todos”, sublinhou Catarina. Ao abrir as portas da investigação ao público, a iniciativa mostrou que fazer ciência também começa com algo tão simples como observar, perguntar e querer perceber melhor o mundo que nos rodeia. “Ao mostrar a investigação de forma acessível e descontraída, conseguimos despertar a curiosidade, e mostrar que todos podem fazer perguntas, procurar respostas e fazer parte da ciência”, concluiu.

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