Uma equipa do Centro de Física da Escola
de Ciências da UMinho (ECUM) está a revolucionar a forma como se testam novos fármacos
e produtos cosméticos. Os investigadores desenvolveram inicialmente modelos in vitro de pele e, em colaboração
com o Centro de Engenharia Biológica da UMinho e o UCIBIO (Faculdade de
Farmácia da Universidade do Porto), estão a criar modelos de unha e cabelo
baseados em nanotecnologia. Estas soluções substituem os tradicionais testes em
animais, revelando-se mais rápidas, económicas e ambientalmente sustentáveis.
O projeto de empreendedorismo EyeOnDrug (https://www.eyeondrug.com/), distinguido pelo IAPMEI, marcou o
arranque da aposta em desenvolver modelos não animais de estruturas biológicas,
mais sustentáveis para o estudo de novos agentes terapêuticos. “Depois deste
projeto, percebemos que havia também muito por explorar na área da cosmética. Queríamos
desenvolver algo quimicamente semelhante à pele, à unha e ao cabelo humanos,
mas de forma sustentável e alinhada com os princípios dos 3R’s – reduzir,
reutilizar e reciclar”, explica Marlene Lúcio, investigadora da ECUM e promotora
responsável pelo projeto.
O modelo de pele, atualmente em processo
de patente, ultrapassa os métodos convencionais. Para além de reproduzir pele
saudável, consegue simular peles com patologias, como a dermatite atópica, algo
praticamente inexistente no mercado. “Normalmente, a cosmética é testada apenas
em pele saudável, mas há milhões de pessoas com pele atópica. Com este modelo
conseguimos ajustar a composição para simular diferentes condições e testar os
compostos de forma mais realista. Isto é inovador”, reforça a cientista.
As membranas criadas pela equipa podem
ser utilizadas em sistemas tradicionais de permeação ou em dispositivos
microfluídicos, poupando reagentes e tornando os ensaios mais simples e
económicos. A ideia é disponibilizar uma alternativa tecnicamente acessível,
sustentável e fiável, evitando métodos que ainda dependem de tecidos animais ou
modelos de demasiado simplificados.
Também o modelo de unha, ainda em
desenvolvimento, poderá vir a ser um aliado no combate às infeções fúngicas, conhecidas
pela sua difícil erradicação. Atualmente, os testes são feitos com unhas
bovinas ou pedaços de unha humana, mas são processos pouco padronizados e limitados.
Do
grafeno às nanoestruturas lipídas: ciência de ponta para diagnosticar e tratar
doenças Paralelamente a este trabalho, Marlene
Lúcio lidera outros projetos que cruzam nanotecnologia, medicina e
sustentabilidade. Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade do
Porto e doutorada em Química Farmacêutica, dedica-se a investigar, a nível
molecular, a forma como atuam os fármacos e qual a sua toxicidade. O objetivo passa
por aumentar o valor terapêutico dos medicamentos e contribuir para tratamentos
mais eficazes e seguros.
Entre as suas investigações destaca-se o
desenvolvimento de nanossistemas lípidos - minúsculas
“cápsulas” que transportam fármacos pelo organismo. Estes sistemas integram componentes
plasmónicos,
libertam o medicamento de forma controlada e permitem visualizar a sua ação em
tempo real, através de bioimagem.
Além disso, a investigadora descobriu
uma forma de extrair grafeno – um material com propriedades
únicas – a partir de algas invasoras que poluem as praias portuguesas. Com este
grafeno sustentável foi possível criar materiais que emitem luz, absorvem
contaminantes e abrem caminho para novos métodos de diagnóstico e terapia. “Estamos
a unir nanotecnologia, saúde e sustentabilidade para criar soluções que
beneficiem não só os doentes, mas também o ambiente”, resume Marlene Lúcio.