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Clarisse Ribeiro – Investigadora Auxiliar no Centro de Física Voltar

segunda-feira, 05/01/2026    Centro de Física
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Dedica-se à Física fundamental aplicada à regeneração e a terapias avançadas, explorando soluções inovadoras que unem ciência de base e aplicações médicas com impacto real na sociedade. Portuguesa, natural do Mónaco, Clarisse Ribeiro é Investigadora Auxiliar no Centro de Física da Universidade do Minho, onde desenvolve atividade científica desde 2009.
O seu percurso combina uma formação sólida em Engenharia Biomédica e um doutoramento em Ciências, na especialidade de Física, com uma carreira marcada pela interdisciplinaridade e pela aposta em materiais multifuncionais para engenharia de tecidos e terapias oncológicas. Nesta entrevista, a investigadora, de 40 anos, confessa-se apaixonada por viagens, leitura, enogastronomia, música, caminhadas, cinema e momentos em família.

NOME: Clarisse Ribeiro
IDADE: 40
NACIONALIDADE/NATURALIDADE: Portuguesa/Mónaco
ÁREA DE INVESTIGAÇÃO: Física Fundamental para regeneração e terapias avançadas
CENTRO DE INVESTIGAÇÃO: Centro de Física da Universidade do Minho (desde 2009)
CATEGORIA ATUAL: Investigadora Auxiliar
FORMAÇÃO ACADÉMICA: Mestrado Integrado em Engenharia Biomédica, Doutoramento em Ciências, na especialidade de Física
HOBBIES: Viagens, leitura, gastronomia, música, caminhadas, cinema e atividades em família

Conte-nos um pouco sobre o seu percurso académico e profissional

Iniciei o meu percurso académico no mestrado integrado em Engenharia Biomédica, tendo depois concluído o mestrado em Eletrónica Médica, com estágio no Centro de Tomografia Computorizada de Braga. Posteriormente, obtive uma bolsa de doutoramento do Instituto Ibérico de Nanotecnologia (
INL) em colaboração com o Centro de Biomateriais e Engenharia de Tecidos de Valência e o Centro de Física da UMinho (CFUM). Desde então, tenho desenvolvido investigação no CFUM da Escola de Ciências da UMinho (ECUM), dedicada ao uso da Física fundamental para aplicações biomédicas, em particular na engenharia de tecidos e na luta contra o cancro. Após o doutoramento, obtive sempre financiamento externo através da FCT: uma bolsa de pós-doutoramento em 2013, um contrato de investigadora júnior e, em 2021, um CEEC para Investigadora Auxiliar, sempre integrada no Centro de Física.


Em que consiste a sua investigação e qual o seu contributo para a ciência nacional e internacional, bem como para a sociedade?

A minha investigação foca-se no desenvolvimento de materiais multifuncionais capazes de responder a estímulos elétricos, magnéticos e fototérmicos, com aplicações na regeneração de tecidos e em terapias inovadoras contra o cancro. O objetivo é criar soluções que acelerem a cicatrização, promovam a regeneração de tecidos (ósseos e cardíacos, por exemplo) e/ou permitam terapias mais eficazes e menos invasivas em oncologia. A nível nacional e internacional, estes trabalhos contribuem para posicionar a investigação feita em Portugal na linha da frente da biofísica e da engenharia de tecidos, promovendo colaborações científicas de relevo e potenciando publicações de alto impacto, financiamento europeu, reconhecimento internacional e aplicações já comercializadas que podem ter impacto direto na qualidade de vida da comunidade. Um bom exemplo deste contributo internacional é a inclusão do meu nome, nos últimos anos, na lista que identifica os cientistas com maior impacto no mundo, elaborada anualmente pela Universidade de Stanford com base no banco de dados de citações Scopus e na editora Elsevier.

Quais foram as descobertas mais importantes até ao momento?

Quando iniciei o meu percurso, a integração de estímulos físicos em estratégias de engenharia de tecidos era quase inexistente. Hoje, já existem muitos grupos de investigação que seguiram essa linha de trabalho, o que demonstra a relevância deste tipo de abordagens. Entre os contributos mais significativos, destaco o desenvolvimento de scaffolds magnetoativos que estimulam a regeneração óssea, fibras piezoelétricas para estimulação cardíaca e partículas funcionais para libertação controlada de fármacos em terapias oncológicas. Essa investigação levou ainda à comercialização internacional de biorreatores baseados nesses princípios. Todos estes avanços mostram como a Física pode ser traduzida em soluções práticas para problemas médicos reais.

Porque decidiu investigar nesta área? O que ou quem a inspirou?

A minha formação em Engenharia Biomédica deu-me, desde cedo, contacto com a aplicação da Física à saúde. Sempre me fascinou perceber como princípios fundamentais, como os da eletricidade ou do magnetismo, podiam ser usados em contextos biológicos e médicos. Notei também que, muitas vezes, a Física não era suficientemente valorizada na área biomédica, quando na realidade ela está presente em todos os processos naturais e fisiológicos, sendo uma mais-valia fundamental para criar novas soluções. Inspirei-me em investigadores que mostraram que a ciência tem maior impacto quando cruza disciplinas e responde a necessidades concretas da sociedade. Foi essa visão multidisciplinar que me motivou a seguir este caminho de investigação.

Quais têm sido os principais desafios?

Um dos principais desafios no início foi o facto da ideia de integrar estímulos físicos em estratégias biomédicas ter sido recebida com alguma desconfiança. Com perseverança e convicção, fui demonstrando a sua importância e, hoje, este conceito é reconhecido como essencial nas abordagens a desenvolver. Para além disso, trabalhar numa área altamente multidisciplinar — que exige diálogo constante entre físicos, engenheiros, médicos e biólogos — e transformar resultados de investigação fundamental em soluções aplicáveis continua a ser um desafio exigente. Outro aspeto crítico, mas também motivador (e talvez por isso bem-sucedido), é o acesso a financiamento competitivo, indispensável para dar continuidade a projetos de elevado risco e inovação. Considero que estas dificuldades são também oportunidades, pois reforçam a relevância da Física na área biomédica e estimulam a procura de abordagens cada vez mais criativas e colaborativas. Acredito que a Física, quando colocada ao serviço da saúde, tem o poder de transformar desafios em cura e esperança em realidade.

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