quarta-feira, 17/06/2026
Centro de Física
Trabalho
de António Queirós associa a miopia ao uso do telemóvel, à idade e ao historial
familiar.
Um estudo com 347 crianças e adolescentes
portugueses concluiu que a miopia está associada sobretudo à idade, ao nível de
escolaridade e a características do olho, sendo mais frequente nos alunos mais
velhos. A utilização do telemóvel mostrou algumas associações com a miopia
durante o período escolar, enquanto as atividades ao ar livre e a miopia dos
pais tiveram um impacto menos claro do que o esperado.
As conclusões são apresentadas no artigo
científico “Refractive status, visual behaviour, and parental myopia in
Portuguese schoolchildren and adolescents”, publicado na revista BMC
Pediatrics, por António Queirós, Alice Doellinger e Jéssica Henriques,
investigadores do Laboratório de Investigação em Optometria Clínica e
Experimental (CEORLab) da Escola de Ciências da Universidade do Minho (ECUM).
O estudo foi desenvolvido no âmbito
das teses de mestrado de Alice Doellinger e Jéssica Henriques e envolveu a
análise de 347 crianças e adolescentes com idades compreendidas entre os 6 e os
18 anos. Os resultados evidenciam um aumento significativo da prevalência de
miopia com a idade. Entre as crianças dos 6 aos 10 anos, apenas 12%
apresentavam miopia. Este valor sobe para cerca de 35% nos participantes entre
os 11 e os 18 anos.
Destaca-se ainda que, entre os
alunos do ensino secundário, a prevalência de miopia ultrapassa os 45%,
evidenciando a crescente incidência desta condição visual nas faixas etárias
mais avançadas da população jovem.
O
estudo identificou também uma associação entre o uso frequente de telemóveis e
a presença de miopia, sobretudo durante os períodos letivos (outono, inverno e
primavera). As crianças com miopia apresentaram, em média, uma maior utilização
destes dispositivos do que as crianças hipermétropes (com dificuldade de visão
ao perto). Segundo os investigadores, estes resultados devem ser interpretados com
cautela, mas reforçam a preocupação crescente com os hábitos visuais das
crianças e adolescentes, num contexto de utilização intensiva de dispositivos
digitais. “Os nossos dados confirmam que a miopia é um problema crescente também
em Portugal e sublinham a importância de monitorizar os hábitos visuais e
promover estratégias preventivas desde cedo”, referem os autores do estudo. Em
contraste, o tempo de estudo e as atividades ao ar livre revelaram associações
menos consistentes.
A investigação destaca ainda a
importância dos fatores hereditários. As crianças com pais míopes apresentaram
uma maior frequência de miopia, corroborando a influência da componente
genética na saúde visual. Adicionalmente, os participantes míopes apresentavam,
em média, um maior comprimento axial do olho, uma característica frequentemente
associada à progressão da miopia.
Os autores alertam ainda para o
facto de a miopia não se limitar a uma dificuldade de visão ao longe. Quando
progride, esta condição pode aumentar o risco de patologias oculares graves na
idade adulta, incluindo descolamento da retina, glaucoma e degeneração macular
miópica.
O estudo sublinha a necessidade de
aprofundar a investigação nesta área em Portugal, nomeadamente através da
utilização de metodologias mais avançadas e de estudos longitudinais. Os dados
agora publicados correspondem à fase inicial de um projeto que acompanhará os
participantes durante três anos, permitindo compreender melhor os fatores de
risco associados à miopia e contribuir para o desenvolvimento de estratégias de
prevenção mais eficazes.