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Da saúde à tecnologia: Matemática ajuda a mapear a investigação científica Voltar

quinta-feira, 29/10/2026    Centro de Matemática
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Dois estudos com a participação de Cecília Castro, investigadora da Escola de Ciências da Universidade do Minho, combinam Matemática e ciência de dados para identificar tendências, redes de colaboração e questões por aprofundar na investigação sobre hidrogénio molecular nas doenças renais e blockchain nos ensaios clínicos.
Como evolui a investigação numa determinada área científica? Que temas despertam maior interesse e que questões continuam por responder? Dois estudos com a participação de Cecília Castro, do Centro de Matemática (CMAT) da Escola de Ciências da Universidade do Minho (ECUM), recorrem a métodos estatísticos e computacionais para analisar a literatura científica em dois domínios distintos: o hidrogénio molecular nas doenças renais e a tecnologia blockchain nos ensaios clínicos.

No primeiro trabalho, Molecular hydrogen and kidney diseases: a scoping review based on scientometry and data analytics, publicado na revista
Medical Gas Research, foram analisadas 69 publicações selecionadas numa pesquisa bibliográfica concluída em 12 de fevereiro de 2025. Realizado em colaboração com Johanna Viana, nefrologista da Unidade de Saúde Local de Braga, o estudo organiza o conhecimento sobre o potencial do hidrogénio molecular na proteção dos rins, identifica os temas mais investigados e aponta questões que precisam de maior aprofundamento.


Os resultados descritos na literatura, obtidos sobretudo em estudos laboratoriais e em animais, sugerem que o hidrogénio molecular poderá ajudar a reduzir a inflamação e alguns processos que danificam as células dos rins. A investigação analisada abrange diferentes situações, incluindo a lesão renal aguda, a doença renal crónica, os danos renais provocados por medicamentos e o transplante renal. A revisão sublinha, no entanto, a necessidade de ensaios clínicos de maior dimensão e com métodos bem definidos para avaliar a eficácia e a segurança em seres humanos.

"A minha contribuição nestes trabalhos passou pela conceção dos estudos, pela escolha e aplicação de métodos estatísticos e computacionais e pela interpretação dos resultados, em colaboração com os restantes autores. Estudámos, por exemplo, as colaborações entre investigadores de diferentes países e as associações entre os temas abordados nos artigos. Ao representar essas relações como redes, conseguimos perceber que países colaboram entre si e que assuntos são frequentemente estudados em conjunto", explica Cecília Castro, docente do Departamento de Matemática da Escola de Ciências da Universidade do Minho.


No conjunto de publicações sobre hidrogénio molecular, a análise identificou uma concentração da investigação na China e no Japão e uma reduzida colaboração internacional. A revisão apontou também questões por aprofundar, como a definição das doses adequadas, a uniformização dos protocolos de administração e a avaliação da segurança a longo prazo.

O segundo estudo, Blockchain in clinical trials: Bibliometric and network studies of applications, challenges, and future prospects based on data analytics, publicado em 2024 na revista
Computer Methods and Programs in Biomedicine, analisa 107 artigos selecionados numa pesquisa bibliográfica concluída em 31 de março de 2024.


Esta tecnologia, conhecida pela sua utilização nas criptomoedas, permite manter registos partilhados, acompanhar o seu histórico e dificultar alterações não autorizadas. Nos ensaios clínicos, tem sido estudada como possível ferramenta para reforçar a integridade dos dados, facilitar auditorias e gerir o consentimento dos participantes. A sua aplicação envolve, contudo, desafios relacionados com a segurança, a proteção de dados, a compatibilidade entre sistemas informáticos e o cumprimento de requisitos regulamentares.

O estudo identifica temas recorrentes, redes de colaboração e questões de investigação, sem desenvolver nem testar soluções em ensaios clínicos reais. A análise aponta também para linhas de investigação que exploram a combinação da blockchain com inteligência artificial e aprendizagem federada — uma forma de treinar modelos com dados de várias instituições, mantendo os dados originais em cada uma delas. O artigo destaca a necessidade de avaliar estas propostas em contextos reais. Na distribuição geográfica apresentada, a Ásia reúne mais de metade das publicações, enquanto a Europa representa cerca de um quarto.

"No estudo sobre blockchain, usámos também um modelo matemático para analisar os títulos, os resumos e as palavras-chave. Um mesmo artigo pode abordar vários temas, e o modelo ajuda a identificar essas combinações a partir de padrões no uso das palavras. Assim, podemos perceber que assuntos se repetem e como se relacionam no conjunto da literatura. A interpretação é feita em articulação com a leitura crítica dos estudos: a frequência com que uma aplicação é discutida não demonstra, por si só, os seus benefícios na prática", afirma Cecília Castro.

Embora abordem questões diferentes, os dois estudos ilustram como a Matemática e a ciência de dados ajudam a compreender a evolução da investigação, a identificar os temas mais discutidos e a mapear a colaboração entre países. Em articulação com a leitura crítica dos estudos e o conhecimento de cada área, estes resultados podem apoiar a definição de novas perguntas e prioridades de investigação.

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