Ignorar Comandos do Friso
Saltar para o conteúdo principal
EN PT

Sofia Duarte – Investigadora Auxiliar no Centro de Biologia Molecular e Ambiental Voltar

sexta-feira, 30/01/2026    Centro de Biologia Molecular e Ambiental
1
É bracarense, tem 46 anos e investiga no Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA), da Escola de Ciências da UMinho (ECUM) desde 2008. Licenciada em Biologia Aplicada e doutorada em Ciências, ramo Biologia, pela Universidade do Minho, Sofia Duarte revela que desde sempre sentiu curiosidade por tudo o que estivesse relacionado com a natureza, o que fez com que fosse fácil decidir o caminho a seguir.
Especialista em Ecologia Aquática, Sofia tornou-se uma referência na aplicação de metodologias moleculares para revelar e proteger a biodiversidade escondida dos ecossistemas aquáticos. Com trabalho realizado em centros internacionais de excelência e uma rede de colaboração que envolve mais de 150 investigadores de 50 países, destaca-se atualmente pela coordenação do projeto NUI-PLASTIC, que recorre a inteligência artificial e ferramentas de DNA para estudar o impacto do lixo marinho na dispersão de espécies nocivas. Para além da ciência, a investigadora cultiva um vínculo profundo com o mundo natural — caminha, fotografa vida selvagem, lê, viaja, faz puzzles e pinta com a filha, encontrando nessas atividades o mesmo sentido de descoberta e cuidado que inspira a sua investigação.

NOME: Sofia Duarte
IDADE: 46
NACIONALIDADE/NATURALIDADE: Portuguesa / Braga
ÁREA DE INVESTIGAÇÃO: Ecologia Aquática
CENTRO DE INVESTIGAÇÃO: Centro de Biologia Molecular e Ambiental — CBMA, desde 2008
CATEGORIA ATUAL: Investigadora Auxiliar
FORMAÇÃO ACADÉMICA: Licenciatura em Biologia Aplicada (2002), Doutoramento em Ciências, ramo Biologia (2008)
HOBBIES: Caminhar na natureza, fotografar vida selvagem, ir ao ginásio, ler, viajar, pintar com a filha e fazer puzzles.

Conte-nos um pouco sobre o seu percurso académico e profissional.

Sou bióloga de formação, com especialização em Ecologia Aquática, e atualmente desempenho funções como Investigadora Auxiliar no Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA), integrado no laboratório associado ARNET – Rede de Investigação Aquática, da Universidade do Minho. Estou na Universidade do Minho há cerca de 27 anos — posso dizer que já faço parte da “mobília da casa”.
Ao longo da minha carreira, fiz períodos de investigação em várias instituições nacionais e internacionais, que foram determinantes para a minha formação científica, incluindo o Laboratório de Microbiologia Molecular da Universidade de Aveiro, o EcoLab da Universidade de Toulouse (França), a Mount Allison University (Canadá) e o AZTI-Tecnalia (País Basco).
Coordenei e participei em mais de 20 projetos nacionais e internacionais, e as minhas publicações têm envolvido uma rede de mais de 150 investigadores de 50 países. Atualmente sou investigadora responsável pelo projeto NUI-PLASTIC, que visa avaliar, através de metodologias inovadoras (inteligência artificial, DNA metabarcoding, DNA ambiental), o impacto do lixo plástico marinho no estabelecimento e dispersão de espécies nocivas (invasoras, patogénicas) em ecossistemas costeiros portugueses.
Também leciono cursos de licenciatura, mestrado e cursos avançados, tendo supervisionado mais de 30 estudantes e jovens investigadores. Participo e organizo diversas iniciativas de divulgação científica dirigidas a estudantes, professores e ao público em geral, com o objetivo de aproximar a ciência da sociedade.

Em que consiste a sua investigação e qual o seu contributo para a ciência nacional e internacional e impacto para a sociedade?
Monitorizar a biodiversidade é crucial para avaliar a saúde dos ecossistemas, proteger espécies e habitats em risco e detetar precocemente invasões biológicas. No entanto, a monitorização tradicional, centrada na observação da morfologia dos organismos, é morosa, depende de especialistas e é frequentemente limitada na distinção entre espécies morfologicamente semelhantes, o que pode comprometer, por exemplo, a deteção precoce de espécies invasoras.
Para ultrapassar estas limitações, utilizo tecnologias de ponta, como o DNA metabarcoding e o DNA ambiental, que permitem identificar espécies a partir de sequências curtas de DNA, de modo semelhante a como os códigos de barras identificam produtos comerciais. Estas técnicas são rápidas, sensíveis e menos invasivas, permitindo detetar espécies mesmo em baixas densidades — como espécies raras ou invasoras recentemente introduzidas — ou em fases iniciais de vida, como ovos e larvas, que são difíceis de reconhecer pelos métodos tradicionais.
Em vários estudos conduzidos pela nossa equipa, estas técnicas revelaram-se mais eficazes para caracterizar a biodiversidade e monitorizar mudanças nas comunidades marinhas e costeiras ao longo do tempo e do espaço. Durante um doutoramento que orientei, revelámos uma impressionante diversidade de cerca de 1300 espécies marinhas, entre elas invasoras e novos registos para Portugal — resultados inalcançáveis com métodos convencionais. Este trabalho contribui diretamente para a gestão e conservação da biodiversidade, fornecendo ferramentas para deteção precoce de espécies invasoras, avaliação do estado ecológico e proteção de ecossistemas vulneráveis às alterações globais.
Colaboro também em projetos de consultoria científica, nomeadamente no desenvolvimento de um programa de monitorização de espécies não indígenas e de um sistema de alerta precoce no Porto de Sagunto (Valência, Espanha). Represento a Universidade do Minho na comissão de cogestão do Parque Natural do Litoral Norte, contribuindo para a integração do conhecimento científico na gestão e conservação deste território.

Quais foram as descobertas mais importantes até ao momento?
A minha investigação tem demonstrado que as ferramentas moleculares, baseadas em códigos de barras de DNA e DNA ambiental, permitem identificar espécies aquáticas de forma muito mais rápida, sensível e precisa do que os métodos tradicionais baseados na morfologia. Graças a estas técnicas, conseguimos detetar espécies invasoras mais cedo, registar novas ocorrências para Portugal e revelar uma diversidade muito superior de peixes e invertebrados nos estudos de monitorização.
Em colaboração com entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente, temos vindo a validar estas metodologias na monitorização de comunidades indicadoras do estado ecológico, como as comunidades de invertebrados que vivem nos sedimentos dos estuários. Este é um passo fundamental para integrar as ferramentas moleculares em programas oficiais de avaliação e gestão ecológica, tornando-as robustas e operacionais para as entidades de gestão e conservação.
Em conjunto, estes avanços mostram que as abordagens moleculares expandem de forma notável o nosso conhecimento sobre a biodiversidade e reforçam a capacidade de proteger e gerir os ecossistemas aquáticos de forma mais eficaz e informada.

Porque decidiu investigar nesta área? O que ou quem a inspirou?
Desde pequena, a Natureza sempre me fascinou. A pessoa que mais me inspirou foi o meu pai, que me ensinou imenso sobre a biodiversidade local: conhecia as aves, mostrava-me os seus ninhos, sabia o nome de todas, identificava os cogumelos comestíveis e conhecia bem as árvores ribeirinhas.
Esse contacto despertou em mim o desejo de compreender e cuidar da biodiversidade, levando-me a seguir Biologia. Ainda hoje, uma das atividades que mais me relaxa é pegar na máquina fotográfica — que trago sempre comigo na mochila — e fotografar, como forma de observar e conhecer melhor o mundo natural.
Na investigação, comecei por estudar microrganismos decompositores em rios e deparei-me com o desafio de monitorizar comunidades “invisíveis”. Foi então que comecei a aplicar metodologias baseadas em DNA para detetar espécies. Mais tarde, ao iniciar o meu trabalho em ecossistemas costeiros e marinhos, encontrei novas comunidades igualmente complexas — os invertebrados — que também representam um desafio à identificação e catalogação. Procurei então cruzar estas duas áreas, aplicando abordagens moleculares ao estudo da biodiversidade marinha e à deteção precoce de espécies invasoras.
Motiva-me poder contribuir para o desenvolvimento e aplicação de ferramentas que aprofundam o conhecimento sobre a biodiversidade dos ecossistemas, cuja complexidade e beleza sempre me fascinaram. Acredito que a ciência é um pilar essencial para apoiar decisões informadas de gestão e conservação, protegendo a Natureza de forma proativa e sustentável.

Quais têm sido os principais desafios?
É difícil chegar aos decisores. Idealmente, a investigação científica, especialmente nesta área, deveria apoiar o desenvolvimento de políticas públicas, mas a transferência de conhecimento continua a ser um grande desafio. Do ponto de vista científico, o principal obstáculo tem sido integrar ferramentas moleculares em programas oficiais de monitorização — um processo que exige validação rigorosa, padronização de metodologias e diálogo contínuo entre ciência, gestão e política.
No dia a dia da gestão, a burocracia representa outro desafio significativo. Processos hierárquicos de aprovação, coordenação de equipas, relatórios e requisitos administrativos podem ser tão exigentes quanto o trabalho experimental, consumindo tempo e energia que poderiam ser dedicados inteiramente à investigação.

1